O Banco Central mostrou um dado que passa despercebido, mas revela um erro recorrente na gestão financeira das empresas brasileiras. Em maio, as novas concessões de crédito para pessoas jurídicas recuaram 1,0% na série ajustada por sazonalidade, enquanto o saldo do crédito livre PJ ficou praticamente estável em doze meses (Estatísticas Monetárias e de Crédito, BC, dados de maio de 2026).
Empresas recebendo menos crédito novo e, ainda assim, mantendo o saldo estável. A pergunta que fica é de onde vem esse fôlego. A resposta está na composição da carteira. Os incrementos vieram de antecipação de faturas de cartão de crédito, adiantamento de contratos de câmbio e capital de giro com prazo de até 365 dias, justamente as linhas mais caras e de menor prazo do mercado. A taxa média do cheque especial para empresas subiu 11% no período, e mesmo o capital de giro acima de 365 dias, uma linha mais longa, teve alta de 1,3%.
Esse movimento acontece junto com outro sinal de deterioração. A inadimplência das operações com pessoas jurídicas subiu para 3,2%, alta de 0,5 ponto percentual em doze meses, e o spread bancário para empresas cresceu 1,6 ponto percentual no mesmo período, chegando a 22,1 pontos percentuais. O spread é a margem que o banco cobra acima do próprio custo de captação, e quando ela sobe de forma generalizada, significa que o mercado está precificando mais risco no crédito corporativo como um todo.
Nem todas as empresas estão nesse caminho. Enquanto o crédito bancário tradicional para PJ estagna, o crédito ampliado às empresas, que inclui títulos de dívida emitidos no mercado de capitais, cresceu 6,9% em doze meses, impulsionado por uma alta de 17,5% nos títulos privados de dívida. Existe um grupo de empresas conseguindo alongar seu passivo a custos mais competitivos, e a diferença entre esse grupo e o restante do mercado não é acesso a capital, é gestão de passivo.
Esse tipo de escolha tem um custo que vai além dos juros. Quando uma empresa recorre a linhas emergenciais de curto prazo para fechar o caixa, outros credores leem esse movimento como sinal de aperto financeiro. Essa leitura mancha o histórico de crédito da companhia, mesmo que o problema seja passageiro. E histórico manchado custa caro na próxima negociação, com taxas piores e condições mais restritivas nas rodadas seguintes.
Os números do Banco Central mostram que a maioria das empresas ainda não amadureceu essa prática. No Brasil, taxa de juros de dois dígitos é a regra, não a exceção, e a Selic estruturalmente alta não está sob controle de nenhuma empresa. O que está sob controle é a forma como cada companhia busca e organiza sua dívida. Buscar fôlego financeiro pela via mais cara e mais emergencial, em vez da mais inteligente, é uma escolha, não uma consequência inevitável do cenário.
Para o gestor financeiro, isso se traduz em três frentes concretas. A primeira é antecipar a renegociação do passivo antes que a necessidade de caixa se torne emergencial, porque negociar sem pressão sempre resulta em condições melhores. A segunda é diversificar as fontes de captação, olhando para instrumentos de prazo mais longo além do crédito bancário tradicional, como fazem as empresas que hoje sustentam o crescimento de 17,5% em títulos de dívida. A terceira é tratar o próprio histórico de crédito como um ativo estratégico, monitorando de forma deliberada o sinal que cada linha contratada envia ao mercado.
É essa gestão ativa do passivo, não o tamanho do caixa disponível no momento, que separa empresas com custo de capital competitivo das que pagam sempre o preço mais alto pelo mesmo dinheiro.