Estratégia reúne diferentes fontes de financiamento para alongar vencimentos, adequar garantias e aliviar a pressão sobre o caixa.
A manutenção dos juros em níveis elevados tem levado empresas de médio e grande porte a revisar a composição de suas dívidas. Além de buscar recursos, as companhias passaram a avaliar com mais atenção fatores como prazos, garantias, concentração de vencimentos e compatibilidade das parcelas com a geração de caixa.
Em junho, a taxa média do crédito livre para pessoas jurídicas alcançou 24,4% ao ano, enquanto a Selic chegou a 14% em agosto. Nesse contexto, os títulos privados de dívida corporativa cresceram 14,2% em 12 meses, ritmo duas vezes superior à expansão de 7,1% dos empréstimos concedidos pelo Sistema Financeiro Nacional.
As ofertas realizadas no mercado de capitais também avançaram. Nos sete primeiros meses de 2026, as emissões somaram R$ 429,8 bilhões, aumento de 8,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os números indicam que as companhias estão recorrendo com maior frequência a alternativas capazes de combinar diferentes condições de custo, prazo e garantias.
Uma das soluções que ganharam espaço nesse ambiente é o chamado crédito híbrido, denominação utilizada pela Multiplike para operações que reúnem recursos de instituições financeiras, fundos, securitizações e outros instrumentos do mercado de capitais. A estrutura permite direcionar cada financiamento para a fonte mais adequada às características e às necessidades do tomador.
“Depois de um período prolongado de juros altos, muitas empresas começaram a perceber que o problema não está apenas na taxa. A concentração de vencimentos, o prazo da dívida e o tipo de garantia podem pressionar tanto o caixa quanto o custo financeiro. O que temos observado é uma busca por liquidez e por estruturas que permitam alongar o passivo de maneira compatível com a geração de caixa da companhia”, disse Volnei Eyng, CEO da Multiplike.
A procura por substituição de contratos firmados com outras instituições por novas estruturas aumentou aproximadamente 22% na Multiplike em 2026. Segundo Eyng, as operações levam, em média, dez dias para serem estruturadas. A proposta não é concorrer com linhas emergenciais, mas desenvolver soluções de longo prazo ajustadas à situação financeira de cada companhia.
Todas as operações realizadas pela Multiplike passaram a ser classificadas internamente como híbridas, uma vez que o conglomerado pode distribuir os financiamentos entre diferentes canais de captação. Em 2026, a empresa movimentou mais de R$ 10 bilhões. A maior transação alcançou R$ 837 milhões e teve como tomadora uma companhia de distribuição e comércio de metais não ferrosos.
Do total da carteira, 69% estão concentrados no setor de serviços, 24% na indústria e 7% na agropecuária. Com uma estrutura financeira autorizada pelo Banco Central, a companhia também passou a acessar modalidades como Letras de Crédito Imobiliário e Letras de Crédito do Agronegócio, quando aplicáveis. O objetivo é diminuir as despesas de captação e oferecer condições mais competitivas aos clientes.
A instituição não informa uma redução média das taxas cobradas, pois o preço final depende do risco da operação, das garantias oferecidas, do prazo e da origem dos recursos. No último mês, o percentual de operações vencidas ficou em 0,39%.
A revisão dos passivos deve continuar relevante diante da avaliação cautelosa do Banco Central sobre a economia. Ao reduzir a Selic para 14%, o Comitê de Política Monetária apontou uma moderação gradual da atividade, mas ressaltou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permanecem acima da meta. Mesmo com a continuidade do ciclo de cortes, o custo financeiro deverá seguir como um componente importante do planejamento empresarial.
A Multiplike prevê encerrar 2026 com mais de R$ 20 bilhões em operações e prepara novos canais de captação para 2027. “A discussão para a empresa não deveria ser simplesmente como conseguir mais crédito, mas como construir um passivo que ela consiga carregar de forma sustentável. Quanto mais fontes de funding estiverem disponíveis, maior é a possibilidade de encaixar prazo, garantias e custo na realidade daquele negócio. Em um ambiente de juros ainda elevados, essa estrutura pode fazer diferença na capacidade de a companhia continuar investindo e crescendo”, afirmou Eyng.
Reportagem completa em https://brazileconomy.com.br/financas/2026/09/credito-hibrido-movimenta-r-10-bilhoes-ao-combinar-banco-e-mercado-de-capitais/