Nos últimos anos, o setor de fomento mercantil vem passando por uma mudança importante. Um movimento que tende a ser uma evolução natural do mercado, mas que na prática exige muito mais cuidado e maturidade do que o setor historicamente precisou ter.
Por muito tempo, o crescimento do fomento esteve baseado nas operações de securitização de recebíveis. É uma atividade conhecida, testada ao longo de décadas e que funciona muito bem quando é feita da forma correta. A lógica sempre foi clara. Comprar recebíveis com lastro, precificar bem e acompanhar o contas a receber de perto. Quando esses pontos estão bem organizados, o risco tende a ser previsível e a operação entrega resultado. Foi assim que o setor se estruturou, cresceu e se fortaleceu ao longo do tempo.
Na securitização, o risco está no recebível. Mesmo quando cedente ou sacado têm restrições financeiras, o papel pode continuar saudável. Muitas vezes o pagamento acontece porque existe uma relação comercial que precisa continuar. O fornecedor paga porque depende daquele serviço, daquele produto ou daquele parceiro. É um risco conhecido, que sempre fez parte da dinâmica do fomento e que o mercado aprendeu a administrar.
Essa lógica muda bastante quando entramos em operações de crédito. Aqui não estamos falando apenas de uma variação do mesmo negócio, mas de uma mudança real na forma como o risco se apresenta. No crédito, o dinheiro deixa de estar ligado a um ativo específico. Ele entra direto no caixa da empresa e passa a fazer parte do giro. Não existe mais um lastro claro de liquidação. O risco deixa de estar no papel e passa a estar, basicamente, na própria empresa que toma o recurso. Com isso, o balanço passa a ter um peso que nunca teve nas operações tradicionais de fomento.
Esse ponto costuma ser subestimado. Muitas empresas que sempre operaram bem no fomento mercantil têm passivo maior que ativo e patrimônio líquido negativo. Isso, por si só, não era um problema quando a operação estava garantida por um bom recebível. No crédito, passa a ser um fator decisivo. O risco deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.
Esse movimento ganhou força principalmente depois da pandemia. Muitas empresas perderam contratos, clientes e previsibilidade. Houve uma busca forte por recomposição de capital de giro, ao mesmo tempo em que o mercado começou a sentir falta de bons recebíveis disponíveis. Nesse cenário, a concessão de crédito surgiu como um caminho natural para parte do setor. E não há nada de errado nesse movimento em si. O problema está em como ele é feito.
Crédito não é algo que se aprende rápido. Não basta crescer, precificar bem ou ter vontade de fazer. Crédito exige experiência, leitura de risco e entendimento claro de limites. É uma atividade que se constrói no dia a dia e que depende muito da maturidade do time. O erro, quando acontece, não costuma aparecer aos poucos, ele aparece de uma vez.
A experiência mostra que o que costuma tirar empresas de fomento do mercado não é, na maioria das vezes, erro de gestão ou de precificação. É a inadimplência. É quando o risco se concentra e vira perda de verdade. Isso ajuda a explicar por que, nos últimos anos, começaram a surgir situações que antes eram raras no setor. Empresas do segmento quebrando, entrando em recuperação judicial ou sendo vendidas por dificuldade financeira passaram a fazer parte do noticiário do segmento. Esses casos não surgem por acaso. Eles são resultado de decisões de risco tomadas sem o preparo necessário ou sem uma boa leitura do cenário.
Por isso, este momento precisa ser tratado como um período de transição consciente. Avançar para o crédito pode fazer sentido, desde que seja feito com critério, disciplina e respeito ao risco. Não se trata de frear o crescimento do setor, mas de garantir que esse crescimento seja sustentável.
Existe ainda um ponto importante que muitas vezes é deixado de lado. A solidez financeira de cada empresa do segmento impacta o setor como um todo. Um mercado formado por empresas bem estruturadas financeiramente é mais forte, mais confiável e mais duradouro. Foi dessa forma que o fomento mercantil se consolidou ao longo dos anos. E é isso que precisa continuar acontecendo.
Crédito é essencial para a economia, mas precisa ser tratado com responsabilidade. Exige tempo, aprendizado contínuo e maturidade. Quem entende isso protege o próprio negócio e ajuda a manter o setor saudável. Em um momento de tantas mudanças, ter maturidade e cautela para avançar é uma exigência.